• Eduardo Sato

Cientistas publicam estudo mostrando praticas colonialistas na paleontologia


Paleontólogos denunciam efeitos do colonialismo para a área no Brasil e México. O artigo publicado na Royal Society Open Science discute as leis de proteção patrimonial, publicações de estudos pelo mundo de espécies retiradas destes países sem pesquisadores locais (proibido pela lei brasileira) e tráfico ilegal de fósseis que acabam em coleções de outros países, principalmente na Alemanha e Japão.


Os autores analisaram três décadas de publicações relacionadas à Bacia do Araripe no Brasil e das bacias Sabinas, La Popa e Parras no México. No caso do Brasil, quase 60% dos artigos foram liderados por estrangeiros e entre estes 57,14% não inclui pesquisadores brasileiros ou instituições do nosso país como colaboradores, o que é algo proibido por lei.


Além disso, 43% dos fósseis estão em coleções fora do Brasil e não apresentam permissão de exportação ou autorização de coleta.


O artigo tem gerado discussões importantes. A comunidade de paleontologia foi elogiada por colocar em números uma situação que é conhecida há muito tempo. Houve também críticas que consideram o artigo um ataque a alguns pesquisadores específicos e ao Museu de História Natural de Karlsruhe.


O museu de Karlsruhe lidera a lista de instituições que abrigam fósseis considerados ilegais e esteve no centro de uma polêmica anterior devido a um raro e importante dinossauro brasileiro, o Ubirajara Jubatus.


O estudo desta espécie de características únicas foi feito sem a participação de pesquisadores brasileiros e o fóssil está em posse do museu de Karlsruhe. Há uma forte suspeita do fóssil ter sido obtido ilegalmente através de contrabando. Isto gerou a campanha #UbirajaraBelongsToBR (em tradução-livre: Ubirajara pertence ao Brasil) que luta por sua repatriação.


Pesquisadores brasileiros encararam o nome Ubirajara como uma provocação. O nome faz alusão a um livro homônimo de José de Alencar que tem como protagonista um índio brasileiro puro, não corrompido pela cultura europeia, sendo um dos romances indianistas que tenta resgatar o nacionalismo brasileiro, junto de O Guarani e Iracema, obras do mesmo autor.


Após intensa campanha, o artigo sobre o Ubirajara foi retratado pela revista que o publicou. Inicialmente o curador do museu de Karlsruhe e co-autor do artigo Eberhard Frey disse que o fóssil não voltaria ao Brasil e era propriedade do estado alemão de Baden-Württemberg. O que gerou um imenso volume de mensagens de protesto nas redes sociais, em especial nos comentários das páginas gerenciadas pelo museu.


Posteriormente, o museu de Karlsruhe declarou à Science.org que está pronto para devolvê-lo assim que receber um pedido oficial de repatriação do Brasil.


É importante que países como o Brasil se preocupem com outras nações tentando explorar suas riquezas. A bacia do Araripe possui um dos sítios paleontológicos mais importantes do mundo e precisa ser devidamente preservado e estudado.


Referências e saiba mais:


[1] CISNEROS, Juan Carlos et al. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science, v. 9, n. 3, p. 210898, 2022. (versão em português)

[2] Institutions in the global north hoard fossils from Brazil, study says. Science.org

[3] #UbirajaraBelongstoBR: uma bandeira contra o colonialismo na Ciência. Colecionadores de Ossos (canal do Youtube). Palestra apresentada por CISNEROS, J. C. no 3rd Paleontological Virtual Congress.

[4] Colonialismo, fósseis e 'Ciência Paraquedista'. Colecionadores de Ossos (canal do Youtube).

[5] Paleontology ‘a hotbed of unethical practices rooted in colonialism’, say scientists. The Guardian


Discussões interessantes:


[6] Thread no twitter explicando o artigo por Aline Ghilardi (Uma das autoras)

[7] Thread no twitter sobre o tema por Juan Cisneros (Um dos autores)


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